Artigo

 

A humildade é e sempre será o melhor remédio.

 

Por Telma Maria Santos[1]

 

O meu curso primário, numa escola pública estadual de Sergipe, foi marcado por livros de conteúdo lúdico: as várias histórias que pulavam das páginas mágicas eram um convite para a imaginação de qualquer criança mais atenta às entrelinhas das mensagens, pois é fato que, muitas vezes, o que está subentendido é a “moral da história”.  Em muitas delas viajei, ao lado da minha avó, sem sair do “batente” da nossa casa.

Uma dessas lições marcantes tinha dois personagens principais e toda a selva no papel de coadjuvante. Era um leão que insistia em perguntar aos demais moradores da floresta quem era o “rei da selva”. Obviamente que ele assim se julgava e, vaidoso, esnobava os demais animais, dizendo-se o mais ágil e veloz e coisas do gênero.

Mas havia um animal, não tão ágil, não tão veloz, nem tão arrogante. Discreto e tranqüilo, como todo aquele que tem segurança íntima da própria força. Com um movimento, o elefante deitou por terra toda a empáfia do felino: sem peripécias e também sem cerimônia, pegou o Phantera leo pela cauda, fê-lo rodar várias vezes, arremessando-o a uma distância suficiente para vê-lo cair estatelado. Humilhação total para o animal de porte nobre que se achava o dono da selva.

A primeira lição de humildade, eu aprendi com esta história, nas páginas do livro cujo nome e autor não lembro. Pena que nem todos tenham acesso, ainda na meninice, a histórias assim. E mais penalizada fico daqueles que deixaram passar em branco a profunda lição que aí está retratada.

É que o ego tem mecanismos bem eficazes de fazer com que somente vejamos, ouçamos e assimilemos o que lhe convém. Por isso precisamos vigiá-lo, para não cairmos no ridículo que o supostamente poderoso leão caiu.

Mas qual o remédio para que se evitem quedas tão desastrosas e para que se possa levantar de outros tombos, às vezes, inevitáveis? Ora, um rápido olhar para algumas palavras de filósofos e profetas e teremos a profilaxia poderosa, o antídoto potente, a vacina eficaz: a humildade.

Sócrates, dentre todos os filósofos, através de uma frase, pontuou este remédio para a humanidade orgulhosa e frágil, melhor dizendo, frágil e orgulhosa, pois é fato que o orgulho provém de uma profunda fragilidade de mente, de alma e de espírito: “Só sei que nada sei”. Um marco na filosofia, porque remete todos para uma necessária autocrítica.

E para não dizer que tal provocação era insuficiente para um mergulho no auto-aprimoramento, há 2007 anos A mais Perfeita de todas as criaturas que já pisou o solo deste planeta conclamou a humanidade de todas as épocas, através das palavras que ainda hoje ecoam daquela montanha de suave declive e, principalmente, através das atitudes, ao sublime exercício da humildade.

E aí, quem tem olhos para ver? Quem tem ouvidos para ouvir?  Quem continuará doente e refém de si mesmo?  É uma escolha. Porém não é demais lembrar que ao livre arbítrio que se tem de semear o que se quer, corresponde o fato de a colheita ser vinculada. Em outras palavras e como diziam e dizem nossas avós: “colhe-se o que se planta”.


 

[1] Telma Maria Santos é Juíza Federal da 4ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe e poetisa, autora do livro Além das Flores, lançado em 2006.

   

 

 

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