Notícia

 

A REMESSA DE PROCESSOS

                                                                                   Vladimir Souza Carvalho (*)  

            O distribuidor Jailton da Silva Monteiro foi o braço mais eficiente que tive, em meio aos serventuários da comarca, na minha breve, e sempre lembrada, passagem por Nossa Senhora da Glória. Além de dirigir meu veículo, de Itabaiana a Nossa Senhora da Glória e Nossa Senhora da Glória a Itabaiana, e de suas atribuições como distribuidor, acompanhava-me nas viagens aos termos de Monte Alegre de Sergipe, Poço Redondo e Canindé de São Francisco. Era, por assim dizer, a minha sombra. Até para um jantar, que, esporadicamente, era convidado e comparecia, eu o levava.

            Era Jailton quem se encarregava do intercâmbio dos cartórios dos termos com a sede da Comarca. Explico: ele servia como intermediário para receber os pacotes de processos que os escrivães remetiam, encarregando-se, uma vez despachados, de enviá-los de volta. O serviço era eficiente e seguro, sem nunca ter ocorrido nenhuma perda nem extravio. Jailton conhecia todo mundo dos demais termos, e, ao que parece, todo mundo o conhecia, de maneira que, com tal serviço, o escrivão evitava se deslocar até a sede da Comarca, e, nesta, chegando os autos, podia eu despachá-los tranqüilamente.

            O serviço funcionava bem. Os pacotes de processos para lá e para cá, no bom ritmo que a Comarca conseguíamos conferir, de forma que qualquer pessoa,  que aparecesse no Fórum anunciando que ia se deslocar para alguma das três cidades que lhe formavam a jurisdição, servia de intermediário na tarefa de fazer o pacote chegar ao destino devido. Todos estávamos irmanados nessa atividade, de maneira que caçar portadores de autos era uma atividade quase que diária, afinal, recebendo o feito o seu despacho, o cartório, de imediato, expedia os atos necessários, o advogado era intimado, a demanda tinha sua seqüência, a jurisdição prestada, a comarca cumpria bem a sua função.

            O nome de Jailton da Silva Monteiro, mentor de toda essa articulação de recebimento e de remessa, é pronunciado hoje com uma dose muito profunda de saudade. Problemas surgidos fizeram-lhe chegar, de forma prematura, aos meandros da morte. Foi sepultado justamente no dia em que a Justiça Federal sergipana inaugurava o seu Fórum, o Fórum Ministro Geraldo Barreto Sobral. Na mesma tarde e mesmo horário. Diretor do Foro, à época, não segurei a alça do seu caixão. Não havia como me deslocar até Nossa Senhora da Glória, naquele dia.

            Mas, dentro do recebimento e da remessa dos feitos, abro um parêntesis para um fato que, por muito tempo, esteve hibernado na minha memória, envolvendo o advogado simpático, diplomata, de conversa agradabilíssima, fino no diálogo. Lá está ele no Fórum, numa terça-feira à tarde, com seu bonito terno, indiferente ao demorado deslocamento Aracaju-Nossa Senhora da Glória, sobretudo quando de Nossa Senhora das Dores para lá tudo era piçarra, o que implicava em poeira, capaz de entrar carro adentro e macular qualquer trajo. E, evidentemente, não era um advogado desconhecido, ou que freqüentasse a Comarca uma vez na vida, ou ali estivesse pela primeira vez. Em absoluto, era presença freqüente, com o fato, acima de tudo, de nunca ter criado o menor problema nos cartórios. Enfim, um daqueles advogados que o juiz se apressa em atendê-lo logo, vencido pela sua educação.

O advogado faz o que tem de realizar, distribui seu encanto com todos, e anuncia que ia a Poço Redondo. Foi o grande equívoco. No momento, eu nem estava atendo ao fato de ter em mãos um punhado de processos que tramitavam no seu cartório. Só quando o nome da cidade foi pronunciado, pude fazer a ligação a escrivã do termo, Maria dos Prazeres Campos de Lima, ou seja, dona Prazeirinha. Pois bem. Tínhamos um pacote em mãos, feitos despachados, só faltando o portador. A notícia da ida do advogado a Poço Redondo resolveria o problema. Estava ali o portador ideal, profissional sério, que, evidentemente, deveria ir até o cartório para consultar algum processo. Problema, assim, resolvido, de forma que não perdi tempo e, ante a notícia do seu deslocamento e o oferecimento, sumamente educado, de que estava as ordens para alguma encomenda, eu não tive a menor cerimônia. Aceitei a oferta. Comuniquei-lhe que tínhamos em mãos o pacote e a viagem dele até Poço Redondo o fazia no portador ideal para tanto.

O advogado não perdeu o humor. Nem disse sim, nem disse não. Diplomata, como era, não ofereceu nenhum obstáculo, embora um silêncio tivesse lhe tomado conta da boca. Não achei nada estranho. O que me chamou à atenção é que o advogado demorou a sair do Fórum, entabulou outra conversa, e, para minha surpresa, quando o momento se tornou adequado, me confessou, a voz baixa, para ninguém mais ouvir, que, em verdade, vejam bem, não iria a Poço Redondo. A sua viagem era para Aracaju, ou seja, para a cidade onde morava. Teria afirmado que iria a Poço Redondo por uma questão de estratégica, revelou, para que a notícia ficasse plantada.

Não compreendi de logo a situação, mas, retirei de suas costas o ônus da encomenda. O pacote iria esperar outro portador. Não se preocupasse. O advogado apertou-me a mão, agradeceu o meu gesto e se despediu. Depois, muito depois, pensando no fato, tive a idéia exata da história, mas, também, educadamente, dei o fato por esquecido. Tivesse percebido antes o seu projeto, e, se intimidade me ocorresse, teria, pelo menos, dado um riso maroto. O leitor há de perceber o que o ilustre advogado faria, retornando, escondido, para Aracaju, enquanto a família pensava que ele estava em Poço Redondo. Eu, de minha parte, já pensei.

Publicado no Correio de Sergipe, edição de 10 de maio do corrente ano.

(*) O autor é contista e pesquisador, responsável, quinzenalmente, aos sábados, pela coluna.

 

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