Artigo

 

ARROGÂNCIA RIMA COM INSEGURANÇA – E TRATA-SE DE RIMA POBRE.

 

                  Por Telma Maria Santos[1]

 

Diz-se pobre a rima quando derivada de duas palavras da mesma classe gramatical, por exemplo, substantivo com substantivo, adjetivo com adjetivo etc. É o caso dos vocábulos arrogância e insegurança.

A arrogância, do latim arrogantia, segundo os dicionários Michaelis e Aurélio, possui múltiplos significados: altivez, insolência, presunção, “orgulho que se manifesta por atitudes altivas e desdenhosas”, soberba, atrevimento. Convenhamos, denota uma gama de sentimentos entorpecedores, típicos de quem procura esconder, ainda que inconscientemente, a própria limitação, os conflitos do ego, a insegurança.

Um dia, numa montanha, houve o mais sublime convite para o percurso rumo ao caminho da auto-iluminação. O Sermão da Montanha é a síntese inigualável de tudo o que a humanidade de todos os tempos necessita para iluminar a consciência e, em decorrência, discernir quem é ela, para onde caminha e o que espera no final dessa estrada.

Dentro desse roteiro de luz declamado pelo Cristo, estão as bem-aventuranças e uma delas é o tema deste artigo: “bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus!”.

É bem verdade que ao longo dos tempos não são poucos os que não entendem o significado do termo “pobres de espírito”. Há até aqueles que utilizam tal expressão com intuito claramente pejorativo, abstraindo o belíssimo e nobre significado que Jesus imprimiu a tais palavras.

“Pobres de espírito”, na acepção do Cântico imorredouro do Mestre denota a nobreza de caráter, a ausência de vaidade, o amor aos ideais, a simplicidade. São os amantes da verdade, os defensores da justiça, da caridade, da ética. São os inocentes, os humildes, ou seja, os libertos dos atavismos inibidores da auto-sublimação.

O indivíduo arrogante é também uma vítima de si mesmo, pois, desconhecendo o cabedal das potencialidades latentes inerentes à sua condição de ser inteligente, tropeça na retaguarda dos sentimentos mesquinhos e mergulha nas sombras de pensamentos, palavras e atitudes repletas de todo o hálito de sua desvairada prepotência.

Pouco sabendo de si mesmo e dos outros, eis que não sabe conquistar, não aprendeu a cativar, tenta compensar a sua indigência psicológica, a sua completa insegurança com atitudes insolentes e orgulhosas, com o querer impor pelo atrevimento o que não conseguiu conquistar pela gentileza que não possui, pela sensatez e sabedoria que ainda não lhe habitam.

Em todos os tempos estes seres inconvenientes andaram na contramão do inexorável caminho do auto-aperfeiçoamento. Entretanto não poderão se ausentar eternamente porque o aprimoramento é inevitável e se não se dá através do amor, certamente a ele serão jungidos através da dor. Afinal, são as nossas imperfeições que delineiam os nossos sofrimentos. Questão de má utilização do livre arbítrio, que nos cabe solucionar.

Montesquieu, na impressionante obra “Do Espírito das Leis”, convida-nos a refletir mais amiúde acerca deste ser tão complexo e tão contraditório que é o Homo sapiens sapiens (atenção, não há erro de grafia, pois o nome do homem moderno, que tem cerca de 120 mil anos realmente, repete a palavra sapiens):

Como ser físico, o homem é governado por leis invariáveis, do mesmo modo que os outros corpos; como ser inteligente, viola incessantemente as leis que Deus estabeleceu.  É preciso que se oriente a si próprio, porém é um ser limitado; está sujeito à ignorância e ao erro, tanto quanto as demais inteligências finitas, e acaba por perder os frágeis conhecimentos que tem; como criatura sensível, está sujeito a mil paixões. Um  tal ser poderia a todo momento esquecer seu criador.  Deus chamou-o a si pelas leis da religião.  Poderia a todo momento exceder-se a si mesma: os filósofos advertiram-no pelas leis da moral.  Feito para viver em sociedade, ele poderia esquecer-se dos seus semelhantes: os legisladores fizeram-no voltar aos seus deveres pelas leis políticas e civis.[2]

 

É de se indagar então o que o homem precisa mais para melhorar-se a si mesmo além de tão eloqüentes apelos. Parece que, para alguns, somente a porta da dor poderá fazê-los descobrir e percorrer, enfim, a vereda dos sentimentos que engrandecem, que preenchem, que dinamizam e que os elevam à condição de seres que refletem o apogeu da criação.


 

[1] Juíza Federal da 1ª Vara da Seção Judiciária de Sergipe.

[2] Editora Martins Claret, p. 19.

 

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