ARROGÂNCIA
RIMA COM INSEGURANÇA – E TRATA-SE DE RIMA POBRE.
Por Telma Maria Santos
Diz-se pobre a rima
quando derivada de duas palavras da mesma classe
gramatical, por exemplo, substantivo com
substantivo, adjetivo com adjetivo etc. É o caso dos
vocábulos arrogância e insegurança.
A arrogância, do latim arrogantia, segundo os
dicionários Michaelis e Aurélio, possui múltiplos
significados: altivez, insolência, presunção,
“orgulho que se manifesta por atitudes altivas e
desdenhosas”, soberba, atrevimento. Convenhamos,
denota uma gama de sentimentos entorpecedores,
típicos de quem procura esconder, ainda que
inconscientemente, a própria limitação, os conflitos
do ego, a insegurança.
Um dia, numa montanha, houve o mais sublime convite
para o percurso rumo ao caminho da auto-iluminação.
O Sermão da Montanha é a síntese inigualável de tudo
o que a humanidade de todos os tempos necessita para
iluminar a consciência e, em decorrência, discernir
quem é ela, para onde caminha e o que espera no
final dessa estrada.
Dentro desse roteiro de luz declamado pelo Cristo,
estão as bem-aventuranças e uma delas é o tema deste
artigo: “bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o reino dos céus!”.
É bem verdade que ao longo dos tempos não são poucos
os que não entendem o significado do termo “pobres
de espírito”. Há até aqueles que utilizam tal
expressão com intuito claramente pejorativo,
abstraindo o belíssimo e nobre significado que Jesus
imprimiu a tais palavras.
“Pobres de espírito”, na acepção do Cântico
imorredouro do Mestre denota a nobreza de caráter, a
ausência de vaidade, o amor aos ideais, a
simplicidade. São os amantes da verdade, os
defensores da justiça, da caridade, da ética. São os
inocentes, os humildes, ou seja, os libertos dos
atavismos inibidores da auto-sublimação.
O indivíduo arrogante é também uma vítima de si
mesmo, pois, desconhecendo o cabedal das
potencialidades latentes inerentes à sua condição de
ser inteligente, tropeça na retaguarda dos
sentimentos mesquinhos e mergulha nas sombras de
pensamentos, palavras e atitudes repletas de todo o
hálito de sua desvairada prepotência.
Pouco sabendo de si mesmo e dos outros, eis que não
sabe conquistar, não aprendeu a cativar, tenta
compensar a sua indigência psicológica, a sua
completa insegurança com atitudes insolentes e
orgulhosas, com o querer impor pelo atrevimento o
que não conseguiu conquistar pela gentileza que não
possui, pela sensatez e sabedoria que ainda não lhe
habitam.
Em todos os tempos estes seres inconvenientes
andaram na contramão do inexorável caminho do
auto-aperfeiçoamento. Entretanto não poderão se
ausentar eternamente porque o aprimoramento é
inevitável e se não se dá através do amor,
certamente a ele serão jungidos através da dor.
Afinal, são as nossas imperfeições que delineiam os
nossos sofrimentos. Questão de má utilização do
livre arbítrio, que nos cabe solucionar.
Montesquieu, na impressionante obra “Do Espírito das
Leis”, convida-nos a refletir mais amiúde acerca
deste ser tão complexo e tão contraditório que é o
Homo sapiens sapiens (atenção, não há erro de
grafia, pois o nome do homem moderno, que tem cerca
de 120 mil anos realmente, repete a palavra
sapiens):
Como ser físico, o homem é governado por leis
invariáveis, do mesmo modo que os outros corpos;
como ser inteligente, viola incessantemente as leis
que Deus estabeleceu. É preciso que se oriente a si
próprio, porém é um ser limitado; está sujeito à
ignorância e ao erro, tanto quanto as demais
inteligências finitas, e acaba por perder os frágeis
conhecimentos que tem; como criatura sensível, está
sujeito a mil paixões. Um tal ser poderia a todo
momento esquecer seu criador. Deus chamou-o a si
pelas leis da religião. Poderia a todo momento
exceder-se a si mesma: os filósofos advertiram-no
pelas leis da moral. Feito para viver em sociedade,
ele poderia esquecer-se dos seus semelhantes: os
legisladores fizeram-no voltar aos seus deveres
pelas leis políticas e civis.
É de se indagar então o que o homem precisa mais
para melhorar-se a si mesmo além de tão eloqüentes
apelos. Parece que, para alguns, somente a porta da
dor poderá fazê-los descobrir e percorrer, enfim, a
vereda dos sentimentos que engrandecem, que
preenchem, que dinamizam e que os elevam à condição
de seres que refletem o apogeu da criação.