O BORDADO, A UVA E O RETRATO
Vladimir Souza Carvalho (*)
Eu estava no Shopping Recife,
numa loja, a receber duas camisas com o escudo o
Sport bordado em cada uma, quando a máquina,
gingando para um lado e para outro, fazia, em um
tecido esticado, um outro escudo do mesmo time.
Lá estava o leão amarelo, em meio às listas
horizontais em preto e vermelho, ganhando corpo
ao movimentar da máquina. Enquanto esperava
minha encomenda, fixei bem a cena em plena
atividade. E, lá me vem, dos fundos mais
distantes da infância, a figura de dona Zefinha
de Mestre Paulino, em sua máquina de costura, o
pano preso em algum objeto que não sei o nome, a
ser movido para lá e para cá, na realização de
um bordado colorido, o azul e o vermelho se
destacando, a captar a atenção dos meus olhos de
menino de menos de sete anos de idade. Tudo bem
concatenado, sem lugar para erros, as linhas
fazendo o bordado, guiado o pano pelas mãos
hábeis da bordadeira.
Dona
Zefinha era vizinha de vovó Brasília. Vizinha e
prima. As mães, Maria e Júlia Angélica,
respectivamente, eram irmãs, parentesco que, à
época, não sabia. Já a alcancei em certa idade,
solteira, morando sozinha num casarão na Rua do
Sol, que ia de uma rua a outra, o corredor
imenso, quartos ao lado. Nesta casa, hospedou-se
Juarez Távora, no início do Governo Getúlio
Vargas, depois de vitoriosa a Revolução que
derrubara Washington Luiz. Mestre Paulino, então
intendente, mandou forrar o primeiro quarto,
para nele Juarez Távora poder dormir. Dizem que,
no almoço, uma outra filha do intendente,
Dejanira, teria lhe oferecido doce de goiaba
como se fosse uma novidade para o ilustre
cearense.
Quando tinha
oportunidade, e, como menino não encontra
barreiras, era ver dona Zefinha bordando, a
porta religiosamente aberta - porque ninguém
sabia o que era invasão de domicílio para
realização de qualquer furto -, e lá ia,
intrometido, corredor a dentro, presenciar o
grande fato de o pano ser conduzido, com muita
agilidade, sob o pretexto de perguntar se tinha
carretel vazio para brincar de guerra. Se dona
Zefinha gostava ou não de ver quebrada sua
privacidade com um menino curioso, parado, de
seu lado, a apreciar sua arte de bordadeira,
nunca soube, nem nunca vi nenhuma palavra dura
na minha presença, nem queixa aos meus pais. E,
aliás, acredito que, se não gostasse, teria dado
sinal, ao qual a gente entenderia perfeitamente,
porque tinha bom humor e sabia brincar, como
brincou, com vovó Brasília, na campanha
eleitoral de 1954, ao pregar, num vidro, que
separava as duas casas, voltado para a casa de
vovó, justamente na cozinha, os retratos de
Leandro Maciel e de Serapião Antonio de Góis,
candidatos ao Governo do Estado e a Prefeitura
de Itabaiana, respectivamente. Ora, os
candidatos eram da UDN e vovó votava no PSD.
Brincadeiras entre primas que a gente, menino,
não se metia.
A figura de dona
Zefinha me veio, então, à tona, a máquina
fazendo o que ela passava tanto tempo a
realizar, a máquina substituindo o homem. Mas,
não foi só o bordado. A lembrança ia além, para
o seu quintal, onde uma parreira se destacava, a
primeira que vi na vida, os cachos de uvas
surgindo aqui e ali em meio à folhagem verde, a
vontade imensa de mastigar uma uva daquela, que
dona Zefinha, pacientemente, respondia, ante meu
pedido, que estavam verdes, sem nunca ter me
conseguido convencer de sua verdade. Ah!, as
uvas, cujos cachos, depois, nas feiras, me
chamariam tanto à atenção, embora, na minha
cabeça, a assertiva de estarem verdes
permanecessem presentes.
Dona Zefinha, um dia,
vendeu o fundo da casa. Talvez fosse conveniente
se livrar de parte do casarão. Depois, vendeu a
casa e foi embora de Itabaiana, viver com as
sobrinhas em Aracaju, Brasília ou no Rio de
Janeiro. A casa foi derrubada, juntamente com o
quarto, com forro bonito, onde Juarez Távora
chegou a dormir. De quando em quando, aparecia,
mas, a esta altura, eu já não me lembrava dos
seus bordados, nem dos cachos de uvas verdes que
brilhavam no seu quintal, perto da cisterna
enorme que também aguçava minha curiosidade de
menino. Anos e anos depois, voltou, talvez
sentindo que sua presença não cabia mais na casa
das sobrinhas, quem sabe lá, uma velha sem
utilidade, passou algum tempo na casa de um
sobrinho, e, de lá, melancolicamente, foi para
um asilo em Ribeirópolis, onde faleceu.
No meu livro A
REPÚBLICA VELHA EM ITABAIANA, há uma foto do
mastro do São João, na rua das Flores, nas
primeiras décadas do século vinte, onde ela,
menina, de cabeços encaracolados, aparece.
Sempre me emociono ao ver a foto, a menina que
mais tarde seria uma senhora de idade, como eu a
conheci, no início da década de cinqüenta, ali,
na foto, tão despreocupada, em meio a outras
pessoas, pacientemente a esperar que seu
Teixeirinha retratasse o acontecimento.
Se uma conversa puxa
outra, é no mesmo livro que o retrato de seu
pai, Paulino Aristides de Menezes, aparece, na
condição de primeiro intendente de Itabaiana
depois da Revolução de 30. Ganhou o termo de
mestre, que era utilizado antes do nome – Mestre
Paulino – mais por ter sido alfaiate, com
alfaiataria no mesmo lugar da casa que, com
outra estrutura, mui freqüentei para ver dona
Zefinha bordando, - de que por ter sido maestro
da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Nas
fotos do começo do século XX, a alfaiataria
tinha letreiro na parede da frente.
O retrato de mestre
Paulino não seria nenhuma novidade, porque
também aparece, em outra foto, tirada por seu
Teixeirinha, a frente da Filarmônica Nossa
Senhora da Conceição, divulgada em SANTAS ALMAS
DE ITABAIANA GRANDE (1973) e reproduzida em A
REPÚBLICA VELHA EM ITABAIANA (2000). Mas, o seu
retrato só me chegou as mãos por oferta de dona
Zefinha, na década de setenta. Eu não sonhava em
fazer nenhuma pesquisa sobre o passado de
Itabaiana, e, ela, visionária talvez, esteve na
casa de meus pais, e entregou a foto a minha
mãe. Toma, Maria, dê a Vladi de presente. Eu
conservei a foto por quase trinta anos, sem
saber o que dela fazia, até que, em A REPÚBLICA
VELHA EM ITABAIANA, pude divulgá-la.
No fundo, parece que
dona Zefinha desconfiava de alguma coisa. Se não
tive direito a uma só uva, dos tantos cachos que
enfileiravam a parreira de seu quintal, me foi
reservada a foto do pai, que, no momento certo,
foi incluída em livro sobre a história de
Itabaiana. O gesto da oferta do retrato não pode
ser visto isoladamente. Estava no contexto do
menino que admirava suas peripécias no bordado
feito pela máquina e, um dia, perdendo a
cerimônia, pediu uma uva. Não a teve. Depois,
muito depois, ganhou, a foto aludida, que,
inegavelmente, foi mais produtiva, como se este,
afinal, tivesse sido o seu prêmio. Nas
peripécias do destino, a gente não se mete.
(*) Publicado no
Correio de Sergipe, de 02 de agosto de 2.008.