Do cinema de Zeca e do Padre
Vladimir Souza Carvalho (*)
Lá longe, nos antros da infância, há um cinema
na esquina da saudade, cinema que simbolizava
uma mistura de emoção, festa e privilégio. Ir ao
cinema era quase uma religião, o cinema atraindo
a meninada, a sessão da tarde dos domingos, que
à época, francesamente, era chamada de
matinée, a expectativa quando as janelas
eram fechadas, sinal que o filme ia começar, a
vibração de quase todos para o fato. Enfim, o
filme aguardado, todo mundo em suas cadeiras há
muito tempo para garantir bom lugar.
Dos meus tempos de menino, em Itabaiana, não
existia somente um cinema. Eram dois, cujos
nomes cediam lugar ao do proprietário. O Cine
Popular era apenas o cinema de Zeca, ou seja, de
Zeca Mesquita. Já o Cine Santo Antonio era só o
cinema do padre, isto é, de padre Artur [Moura
Pereira], vigário da época. Em Aracaju,
diferentemente, cada cinema era conhecido pelo
próprio nome, não cabendo a substituição pelo
do proprietário. Talvez porque, em Itabaiana,
fosse costume ligar o estabelecimento ao nome do
dono, reunindo no mesmo bloco os armazéns, as
lojas, as farmácias, os armarinhos, os bares,
etc. e etc. Podia ser o nome que fosse, bonito
ou feio, mas o que predominava era o do
proprietário. A padaria de Zé Gordinho tinha, lá
na frente do platibanda, o nome estampado:
Padaria Santo Antonio. Mas, a ela só se fazia
referência como padaria de Zé Gordinho, como
assim se procedia com relação à de Valdez e à de
Heleno.
Do cinema de Zeca Mesquita,
obrigatoriamente, me vem à tona a figura de
Euclides Barraca, responsável pela disciplina da
platéia. Alto, atlético, Euclides Barraca se
movimentava de um lado e de outro, para evitar
qualquer algazarra. Era o encarregado de colocar
cadeiras móveis, entre uma fila e outra, quando
as cadeiras fixas já estavam ocupadas. Dele
também a obrigação de fechar as janelas, quando
a projeção ia começar, nos matinées dos
domingos. Conversando pouco, ou quase nada, era
respeitadíssimo, sem nunca ter tido uma decisão
sequer, geralmente de expulsão, contestada.
Uma vez, da platéia, nas cadeiras da
parte térrea, estando sentado ao seu lado, vi
Luiz Carlos jogar cuspo no ar quando o filme
começou a ser passado. O liquido descia até a
mão e, num movimento rápido e camuflado, era
arremessado a duas ou três filas a frente, uma
precisão tão fabulosa que fosse tal prática
adotada nos jogos olímpicos, ninguém lhe tiraria
o primeiro lugar. A saliva atirada voava, indo
cair, justamente, na testa de alguém, que, assim
atingido, constatando cuidar-se de cuspe (que
nojo!), não vacilava. Procurava Euclides
Barraca, mostrava o objeto do crime. Não
precisava gastar muito verbo, nem solicitar
providências. O resultado era imediato: Euclides
Barraca subia até o primeiro andar e colocava
três ou quatro pessoas, justamente as que
estavam na frente da fila, naquela posição,
presumidamente as autoras da vil cusparada, para
fora, sem discussão, sem contraditório e sem o
devido processo legal. Os da segunda fila
passavam para a primeira e os expulsos ficavam
na calçada do cinema, inocentemente, a reclamar
o ato de injustiça. A gente ria, por dentro,
calado, observando os fatos. Fora do cinema, o
riso alto, o comentário escondido, a proeza do
gesto, o espanto de quem teve a testa ocupada,
por pouquíssimos instantes, por um jato de cuspe
anônimo.
Não há como pensar no cinema de Zeca
sem que o nome de Euclides Barraca, com o
respaldo de sua autoridade, não venha à tona.
No cinema do padre, muito mais
amplo, a escuridão menor, não havia lugar para o
arremesso de cuspe. Depois, a vigilância não era
exercida só por uma pessoa, como no cinema de
Zeca. Duas, exatamente duas, se encarregavam de
circular todo o recinto, descendo e subindo, o
olho tirânico e implacável na platéia, na busca
de algum engraçadinho que cismava em fumar
durante a projeção da película, a fumaça
denunciando o infrator. Ou, às vezes, era o riso
muito solto, o comentário inconveniente, um
tanto desrespeitoso, e um, ou outro, tomava no
peito a obrigação de pôr ordem na casa, uma
autoridade danada, a meninada se calando ante a
presença de qualquer um dos dois, o receio de
ser colocado para fora, porque o processo de
expulsão era acintosamente sumário, sem direito
a qualquer defesa. As cenas de beijo geravam
sempre um comentário, a disciplina sendo ferida,
mais ou menos como se fosse um colégio de
freiras. Para isso, sempre e sempre, um dos dois
estava a circular, pronto para qualquer
providência, no sentido de manter a disciplina.
Para quem quiser conferir, registro o nome dos
dois implacáveis bedéis: Zé Queiroz e padre
Artur.
O cinema de Zeca e o do padre não
funcionam mais. Zeca Mesquita e Euclides Barraca
já morreram. Zé Queiroz não cuida mais de
cinema, nem padre Artur é vigário da paróquia de
Santo Antonio e Almas de Itabaiana. O prédio do
Cine Santo Antonio, no Edifício Pio XII, na
Praça da Santa Cruz, edificação do padre Eraldo
Barbosa, na década de quarenta, já foi ao chão.
O do cinema de Zeca Mesquita, na Rua do Cisco,
abrigava uma rádio, até algum tempo atrás. Dos
dois, tenho fotos, a história de uma época
preservada.
Na minha lembrança, os dois cinemas
estão funcionando, ainda. E os do meu tempo os
freqüentam, como se fosse uma obrigação,
sobretudo às sessões do domingo,
independentemente do filme que passe. Na imagem
desgastada, estamos outra vez esperando as
lâmpadas se apagarem para sentarmos ao lado da
namorada, afoitos para pegar na mão, intimidade
máxima permitida nos regulamentos da época.
Ninguém se atrevia ir além. Em frente ao bar de
João de Babau, na rua do Cisco, em frente ao
sobrado remanescente da rua do Sol, voltado para
o Beco Novo, está o cartaz, de madeira,
anunciando o filme do cinema de Zeca, filme que
o seu auto-falante, às tardes, também fará a
propaganda.
A lembrança atinge a semana santa,
ao filme preto e branco, quase ilegível, passado
no sábado de aleluia, os movimentos bruscos das
personagens, parecendo bonecos se movendo,
retratando a paixão e morte de Jesus Cristo, que
a gente não perdia, embora quase nada visse na
tela, de velho que era o filme. Mas, mesmo
sabendo, todos chegavam cedo, iniciando a longa
espera até a luz se apagar e a projeção ser
iniciada.
Todos estamos no cinema, seja em um,
seja em o outro, inocentes, sem saber que os
tempos modernos vão matá-lo, não poupando nenhum
dos dois, indiferentes ao papel que cada um
exerceu. Tempos implacáveis que, sem dó nem
piedade, vão decretar o fim do cinema,
substituindo-o pela televisão, pela fita, pelo
DVD, pelo computador, filho de Deus algum
precisando colocar roupa limpa para ir ver um
filme, o espetáculo chegando a sala da própria
casa, ninguém sabendo que o cinema vai agonizar,
as salas ficando vazias, até se render aos
tempos hodiernos, pedir licença e morrer, sem
direito a um enterro digno.
Mas é engano pensar que o cinema
morreu, porque os da minha idade, dele, vão se
lembrar sempre.