DE TONHO OLIVEIRA
Vladimir Souza Carvalho
Tonho Oliveira não é mais gente.
Vestiu-se de morto, enfiou-se num caixão e se
escondeu em uma sepultura no Cemitério das
Almas, de Itabaiana. Agora é apenas um telefone
que não atende mais, um sofá que reclama sua
ausência, mãos que não seguram um livro, dedos
que não passam páginas, olhos que não se abrem
para o texto, boca que não faz nenhum
comentário. Trancou-se com tanta segurança que
de lá, da sepultura, não sai mais, o ouvido
fechado a qualquer pedido, indiferente as
lágrimas vertidas cá fora.
Hão de
dizer, e, com absoluta razão, que a morte não
lhe era novidade. É verdade. Já carregava o seu
gosto na boca. Viu dentro de casa, derrubando,
uma por uma, duas pessoas do seu mundo feliz.
Primeiro, apagou a cor dos lábios de Maria, que
deixaram de enrubescer “em seus matizes”. E como
foi triste a primeira manhã sem Maria em casa,
no vazio que ficou, confessaria, e no primeiro
Natal sem Maria, escreveria um poema, que,
saudoso, divulgou. Depois, quando a dor
cicatrizava, veio outra pancada, ainda maior,
muito mais, sem comparação, na notícia de
Betânia passando mal quando já estava morta,
Tonho chegando de Brasília, o corpo alquebrado,
curvado, a derrota estampada na face, ante o
cadáver da filha, a perguntar aos deuses do
universo o porquê de não ter sido ele, já
vivido, a ser lembrado pela senhora morte, em
lugar da filha, pupila dos seus olhos, com muito
caminho a percorrer.
Pergunta besta, própria de pai que
perdia a filha, disposto ao sacrifício se opção
lhe fosse dada. Ficou sem resposta. Por certo,
os deuses estavam ocupados com as suas tarefas
para ouvirem o clamor indignado de um simples
vivente, pai que chorava o desaparecimento
precoce da filha, fato, afinal, tão comum.
Talvez o silêncio fosse uma forma de dizer que
havia para ele muita terra a palmilhar, caminhos
outros a percorrer, prazeres e sofrimentos novos
para saborear e enfrentar. O eterno dilema da
rosa que perfuma e do espinho que fere, síntese
da vida. Os deuses enxergam a quilômetros e
quilômetros de distância a frente. A gente é que
não sabe. Então, o corpo alquebrado e curvado se
viu na obrigação de voltar ao normal. A dor da
derrota se concentrou só no coração. Tonho era
forte demais para continuar se abatendo. De tudo
ficou a lição: não faria mais planos, vivendo
apenas o dia de hoje. O exemplo de Betânia o
marcava.
Foi viver, solitário em Itabaiana, a
mãe para cuidar, Ezequiel Noronha para lhe
contar, todas as manhãs, diária e sagradamente,
as novidades da terrinha, Álvaro Fonseca de
Oliveira a rememorar, nas noites frias, nos
bancos da Praça da Igreja, as ocorrências do
passado, num parto de memórias, ambos a se
deleitarem com os fatos escondidos nas décadas
que ficavam lá para trás, Itabaiana como centro
do mundo, a rede da casa da mãe, a leitura de
bons livros, quando permitiam, Tonho, de passo
leve, a fazer da Praça o seu ponto predileto,
cercado daqueles que queriam ouvir uma conversa
agradável, o dom da palavra, a condução certa da
matéria com a maestria de quem, na cabeça,
dominava a arte da exposição, as gerações mais
novas que se curvavam aos seus conhecimentos, a
certeza de que sempre tinha platéia para
ouvi-lo, admiradores e amigos para suprimir a
solidão que o espaço deixado por Maria e Betânia
fomentou.
Dona Dosse (ou Doce? Falta-me a
certeza da grafia correta, lembrando que vem de
Eudocia), não é eterna, apesar dos noventa e
sete anos na cacunda. Um dia, das complicações
de uma queda em sua avançada idade, faltando
pouco para comemorar um século de vida, se vai.
Quem disse que Tonho permaneceria sozinho? O
amor, fruto de uma maturidade que a idade, o
sofrimento, a conveniência e a solidão ditavam,
não mais aquele que lhe levou até a presença de
Maria, nos anos cinqüenta, abre as portas para
um novo casamento. Sabe que não é mais o jovem
de antes, encantado com o enrubescer dos lábios
de Maria. Marinheiro de longo percurso, acordado
para a realidade de um mundo novo, abdica, para
a esposa, o vestido de noiva e a cerimônia
religiosa. Deixa de ser viúvo. Há, de forma
permanente, mulher em sua vida, nestes tempos
tão práticos. Tonho, a esta altura, sofria o
assédio de cinco candidatas, segundo ouvi de
Álvaro, que alardeava os nomes. Não invento, nem
me arrisco. O futuro, agora, na maturidade dos
anos, se escrevia com as letras de Lícia, a
escolhida
Há, sim, um novo mundo, quase um admirável
mundo novo, para usar um título de romance, ele
que lia tanto, e gostava de citações [consultar,
a respeito, História breve (e um tanto
cifrada) de uma Paixão – Vários escritos, de
sua autoria], em sua nova vida. Aliança no dedo,
a presença ao seu lado de um amigo que se fez
grande e influente aos seus olhos, mais do que
um filho, sem o parentesco do sangue, Luiz
Carlos Andrade, a feira dos sábados, pela manhã,
o café no mercado, o almoço misturado às altas
discussões políticas, Tonho sem arredar mão da
sua condição de comunista histórico, arrebatado,
agora se arriando na defesa do PT, a voz alta em
defesa de seu pensamento, as idas ao Shopping,
as leituras na Escariz, a memória a ditar a data
de nascimento e de morte das pessoas queridas, a
produção de artigos, a consulta de escritores
acerca de textos de livros, Tonho vivendo ao
lado de Lícia, em viagens anuais a Minas Gerais
e ao Rio de Janeiro, até que o destino mau, como
no poema de Bandeira, fez dele o que quis. E aí
foi a descida lenta, mas vertiginosa, a luta
desesperada com a morte que se avizinhava, o
ceifar do entusiasmo e dos movimentos, a
fraqueza que chegava, o atleta de ontem, da
Associação Olímpica de Itabaiana, que dependia
de terceiros para dar dois passos, a pressão que
cai, a morte que chega e domina seu corpo.
Tonho morreu? Morreu nada. Conversa tola. O
homem era esperto, experiente, calejado de maus
momentos, perseguido e preso por sua condição de
comunista (crime ideológico já se afigura um
absurdo, a prisão cheira sempre a injustiça),
por duas vezes, comerciante de longos anos, ia
muito se deixar levar pela cantada da morte.
Esta que fosse rolar em outro lugar, tanta gente
aí dando sopa. Tonho escapou da morte. Absurdo,
não? Mas é verdade. O cadáver, no caixão aberto,
no velatório ao lado do Cemitério das Almas de
Itabaiana, na noite do dia 10 para a tarde do
dia 11, ambos de agosto corrente, era apenas uma
maneira inusitada de enganar a morte, a fim de
que ela rumasse seus passos sinistros para bem
longe. Tonho Oliveira não morreu. Apenas
encantou-se, para usar o verbo de Guimarães
Rosa. Ou dobrou a esquina, como afirmou Fernando
Pessoa. Desapareceu, então, completo eu. E desde
então, para todos nós, amigos de velhas datas,
que com ele convivemos, conhecendo, de perto,
suas virtudes e defeitos, passou a ser apenas um
ponto de saudade.
Publicado no Correio de Sergipe,
edição do dia 30 de agosto de 2008.