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DENGUE, PIPITA E AIDS
Vladimir
Souza Carvalho (*)
De início, uma pergunta - quem é mais perigoso
para a sociedade: Pepita, levando em conta o que praticou, ou
a dengue? Somando todos os atos do primeiro, praticados numa
região limitada ao campo, a dengue lhe passa uma excelente
dianteira. Quando a água chegou perto da boca, no caso de
Pepita, o Estado se mobilizou para caçá-lo. Tropa de choque da
polícia, helicópteros, o diabo a quatro em seu alcanço, a
imprensa apertando o cerco, etc. e etc., culminando na
esperada morte do jovem delinqüente. Ora, pior que Pipita, a
dengue ataca em todo lugar, principalmente no centro urbano. O
mosquitinho (e aí vai o meu mais profundo respeito ao
mosquito, a ponto de tratá-lo pelo diminutivo) não se utiliza
de droga para se aproveitar sexualmente de indefesas vítimas
femininas, não ameaça ninguém de revólver em punho, não
assalta nenhuma casa, não obriga família alguma a preparar
comida para matar sua fome. Aliás, o mosquitinho nem aparece,
não se mostrando aos olhos da imprensa, nem exige, no seu
encalço, a presença de helicópteros. Nem, ainda, se esconde
mata a dentro, desafiando os treinamentos policiais. O
mosquitinho mora na cidade e ataca pelo dia. O mosquitinho é
mais perigoso, sem dúvida alguma.
Vamos a
outra indagação - quem causa mais morte: a AIDS ou a dengue? A
primeira também é limitada a promiscuidade sexual, abarcando
em seu caminhar apenas as pessoas que, nos seus
relacionamentos amorosos, não se cuidam, desprezando as
recomendações médicas. O mosquitinho ataca todos,
independentemente da idade e da vida sexual, e, aliás, ataca
pessoas que nem vida sexual ainda têm, nem sobre a matéria
entende. Mas, para a AIDS há um cuidado enorme, camisinhas
distribuídas à véspera das grandes festas (carnaval, São
João), até mesmo nos aeroportos. O dr. Almir Santana está aí,
há anos, à frente de uma equipe, alertando, fazendo palestras,
dando entrevistas, falando para estudantes, um veículo
especial, em forma de falo, vestido de camisinha, desfila na
Av. Beira-Mar no início do Pré-Caju, como forma de advertência
à população. E por que não se conceder ao mosquitinho um
tratamento maior que o dado a AIDS?
O
mosquitinho, contudo, como uma aeronave especial, que circula
abaixo dos radares, permaneceu intocável na maioria do tempo,
levando em conta o ano em que começou a atuar no país, 1986,
salvo engano, até os dias atuais. Uma chuva de fumaça ali,
outra aqui, uma advertência mais burocrática que sentimental,
o Estado cruzou os braços e o povo ajudou nos seus cacarecos
abandonados, se enchendo de água, se transformando no leito
ideal para o mosquitinho se reproduzir. Casas abandonadas,
terrenos baldios, piscinas sem uso, telhados retos, quintais
cheios de lixo, caqueiros de plantas, poças de água, tudo se
tornando em maternidade para a propagação do mosquitinho.
Agora, a
crise veio com força. O mosquitinho, primo da muriçoca e da
mosca, no ataque, sem respeitar ninguém. A população se
esconde nos repelentes, o noticiário da imprensa inclemente
com as mortes, o Ministério Público se reunindo com os
diretores de hospitais (públicos e particulares), no difícil e
até infactível combate ao mosquitinho, bicho danado de macho,
que escondido, sem se dar ao luxo de uma entrevista, de uma
passeata, de um manifesto, ataca, até sem saber que ataca,
indiferente as lágrimas dos parentes que perdem um ser
querido, ora bolas, o mosquitinho não tem coração, não sabe o
que é piedade, não se cria ao lado dos pais, nem chorar sabe.
Mas, as
pessoas estão se civilizando. Vi uma entrevista, em canal
local, de um pai, homem rude, que ia criar cinco ou seis netos
deixados pela filha morta, vítima do mosquitinho. O cidadão,
na dor de seu drama, falava em aposentadoria que o Estado
teria de dar aos seus netos, afirmativa que, traduzida, serve
de alerta para a possibilidade de uma futura demanda contra o
Estado, porque este não cumpre seus postulados no que se
relaciona à saúde pública. Nos jornais, leio que parentes de
vítimas vão mover ação de indenização contra o Estado. Deus do
céu! O povo se acorda para exigir do Estado o cumprimento de
seus deveres, levando o problema para a esfera do Judiciário.
É mais abacaxi para o Estado descascar. Ou seja, é outro
flanco que se abre em meio a uma guerra, guerra, sim, ninguém
duvide, contra o terrível mosquitinho.
As
cidades crescem. A imprensa mostra, nos conjuntos novos, às
margens da periferia, pessoas vivendo em casebres miseráveis,
em meio a esgotos ao céu aberto, ambiente tão favorável à
proliferação do mosquitinho. E a saúde pública, nos
confortáveis gabinetes, longe da periferia, pensando, talvez,
que o mosquitinho vai ficar permanentemente instalado na
periferia. Sim, o mosquitinho é atrevido, possui asas, com a
vantagem de nunca ter sido objeto de recenseamento do IBGE,
nenhuma autoridade sem fazer a mínima idéia do seu potencial
populacional. O mosquitinho, ninguém tenha dúvida, vai dar
trabalho, e, quando as correntes marítimas permitirem, serão
tangidos para o centro urbano, aos poucos, sem pressa.
Um amigo,
médico, dr. Luiz Carlos Andrade, respondendo a uma pergunta de
uma cliente, se o mosquitinho ia continuar fazendo as suas,
foi categórico: o Estado não consegue acabar com os bandidos,
que possuem certidão de nascimento, carteira de identidade e
CPF, imagine o mosquitinho, que não tem registro algum. É.
Talvez tenha razão. O tempo dirá. Quem sobreviver, verá.
Publicado no Correio de Sergipe, edição de 26 de abril do
corrente ano.
(*) O
autor é contista e pesquisador, responsável, quinzenalmente,
aos sábados, pela coluna.
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