A Dengue no Século XXI
Vladimir Souza Carvalho
Primeiro foi um mal-estar, marcado pelo enjôo.
Depois, o enjôo evolui para algo pior, isto é,
uma debilidade horrível, e dentro dela, na
seqüência, um desmaio, o preto dos olhos sendo
substituídos pelo branco, como se rodassem,
verdadeiras bolas de gude. Após, ao voltar a si,
o corpo se achava inteiramente molhado de suor,
como se tivesse, naquele exato momento, tomado
um banho e não se enxugado. Tudo começa a causar
impaciência, o som, o cheiro de certas coisas.
Uma dor imensa no corpo inteiro. Uma fraqueza
sem limites. O apetite foi a zero, o liquido se
transformando no único alimento. É mais ou menos
o quadro da dengue, que eu enfrentei. Mas, vamos
ao tempo. Não foi agora, nestes dias de
epidemia, em absoluto. A dengue me atacou nos
idos de 1986, em Maceió, quando por lá me
encontrava como juiz federal da 2a.
Vara. Passei quinze dias para me recuperar.
Estamos no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de
2008. A dengue ainda existe. Incrível como o
mosquitinho resistiu a tanto tempo e a tanto
governo. De Sarney para Collor, de Collor para
Itamar, de Itamar para Fernando, e de Fernando
para Lula. E a dengue está aí, adulta, madura,
fortalecida pela água estagnada em vasilhames e
outras quinquilharias, nos tanques de água, nas
poças que se formam aqui e ali, em todos os
lugares, enfim. O seu ataque, em massa, parece
mostrar que recuou, durante muito tempo, ou se
escondeu, para enganar o Governo, e, reunindo
forças, no exílio de esconderijos seguros,
espalhou seus resistentes soldados, que se
reproduziram, celeremente, como moscas, por todo
o país, para, num momento certo, reiniciar o
ataque, pegando todo mundo desguarnecido.
Não
é nem o caso do cavalo de Tróia. Não precisava
usar um artifício que a história registra e os
filmes exploram tanto. O mosquitinho observou
que não havia muros para ultrapassar. A estrada
estava inteiramente livre. Os hospitais
despreparados, na sua grandíssima maioria. As
campanhas de combate esquecidas na cabeça de
algum burocrata. A água se acumulando em todos
os lugares, favorecendo a procriação de mais
soldados, os mosquitinhos nascendo com o veneno
no sangue, doidos para picar, na transmissão do
vírus que tanto pode levar o paciente à cama,
por alguns dias, como pode encher o cemitério de
novos cadáveres. E a população distraída,
acumulando água estagnada. Tudo favorável ao
mosquitinho.
O
certo é que a dengue voltou, e braba,
enfurecida, ataques em massa, filas nos
hospitais deficientes, o número de óbitos
aumentando, os noticiários exibindo
sepultamentos e lágrimas, a dor estampada nos
que perdem o ente querido, precocemente levado
para outro mundo, porque o mosquitinho não foi
combatido no tempo devido. A epidemia leva-nos a
séculos atrás, quando o cólera morbus sepultava
populações e populações, as páginas da história
se abrindo para o registro do grande número de
óbitos. A diferença é que o cólera morbus
atacava no meio do século XIX, quando, no
momento, salvo engano de minha parte, estamos no
início do século XXI. O fato de hoje se torna o
mesmo de ontem, só que entre um e outro há mais
de um século e meio de civilização, mostrando,
de uniforme, a população, que contribui com sua
negligência, sujeita as ferradas do mosquitinho,
da mesma forma que, nos tempos coevos, se
colocava na linha de frente do cólera morbus. A
diferença é que, naquelas épocas, a medicina
vivia de chá de cidreira e de outros matos.
Hoje, bom, o ambiente científico é outro.
O
combate ao mosquitinho reclama ação
governamental profunda, continuada e séria.
Talvez não seja preciso ressuscitar o dr.
Oswaldo Cruz, nem alertar o sr. Rodrigues Alves
para o perigo da febre espanhola à véspera de
sua segunda posse como Presidente da República.
Talvez não se torne fundamental preparar as
valas com antecedência para os enterros
coletivos, nem colocar os doentes em lazaretos,
como se fazia nos tempos de antanho. Basta um
programa de ações, para tornar o combate mais
eficaz. Mas, ação de verdade, no duro, não mero
pronunciamento do Senhor Ministro da Saúde, nem
uma chamada nos programas de televisão. Não é
possível que um mosquitinho desafie o Estado e o
Estado permaneça indefeso, sem forças para a
contra-reação, nem é factível que a população,
distraída, continue dando guarida à procriação
do mosquitinho.
Tenho a impressão que epidemia é sinônimo de
atraso, de sub-desenvolvimento e de deficiência
administrativa. Não consigo conceber como, no
início do século XXI, um mosquitinho se torne
tão valente e arrogante, a ponto de, sozinho,
desafiar o Estado. Ou o mosquitinho é muito
forte, ou o planejamento das autoridades é muito
deficiente, o que faz com que a sua força
sinistra assuma proporções mais avantajadas.
Combater é necessário, logo e rapidamente, o
mosquinho, desde o nascedouro.
Senão,
vai ocorrer aquilo que a anedota atribuída ao
pessimismo do Sr. Gracialino Ramos indicava,
ante um escritor que, na Livraria de José
Olympio, dizia que, em breve, todo o país ia
comer m...., o que levou o autor de Vidas Secas
a indagar se haveria m..... para todo mundo. O
fato me veio a lembrança depois de ler Arnaldo
Jabor, há dias atrás, quando, em um dos seus
artigos, afirmava que depois da dengue e da
febre amarela, ainda haveríamos de atingir a
perfeição com a varíola. E, aí, eu, lendo a
assertiva, perguntei a mim mesmo se alguém
estará vivo para testemunhar. No fundo, pelo que
vejo de casos de dengue, nos noticiários que
leio, alimento minhas profundas dúvidas.