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O FINAL DO
MUNDO PELO FOGO
Vladimir
Souza Carvalho
Quando
menino, em Itabaiana, ouvi muita conversa, que me
impressionava, sobre o final do mundo. A gente não
tinha noção da vida e, ainda, se via obrigado a escutar
papos dessa natureza. Em tudo, o destaque para o fato de
que o mundo já tinha sido destruído por água, numa
referência ao episódio bíblico de Noé. Agora, seria a
vez do fogo. Labaredas queimariam os quatro cantos da
terra, por ordem de Deus. A gente ouvia, calado,
imaginando a fogueira imensa trucidando tudo, o calor
igual ao que o inferno produzia, o medo plantado na
mente de cada um, tal a convicção que norteava a pessoa
que transmitia a notícia, como se tivesse ouvido tal
assertiva de uma rádio do Céu. Contudo, o medo não
tirava o apetite, nem o sono de ninguém. A vida
prosseguia mansa, até que o assunto voltava a ser
abordado.
Essas
conversaram se perdem e se encerram nos meandros
longínquos dos tempos da infância. Outros fatos surgiram
e, a partir de certo momento, não ouvi mais nada a
respeito do final do mundo. Talvez porque as pessoas que
portavam tal verdade estivessem ocupadas a repassá-las
para os mais jovens, como forma de manter viva a
sinistra profecia. Não sei se à meninada mais nova,
depois, foi contada tal coisa.
Hoje, ao
ler o artigo de João Hélio de Almeida, intitulado de
Breve análise sobre as doutrinas e profecias do Padre
Felismino, ps. 145-153, da última e bem elaborada
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe,
me vêm à tona a dúvida se, afinal, as conversas de
cinqüenta anos atrás não seriam, ainda, um reflexo das
pregações do padre Felismino, cuja figura, aliás, já
merecera abordagem do mesmo João Hélio de Almeida em
CARIRA (Aracaju, Gráfica J. Andrade, 2a.
edição, 2000, ps. 113-114 e 144-145).
O padre Felismino da Costa Fontes é itabaianense, com
toda a certeza. Ou nascido na própria vila, ou nos
arredores, incluindo na expressão os povoados que faziam
parte da vila serrana, no século dezenove, como Campo do
Brito. Seu irmão, o tenente José da Costa Fontes, por
exemplo, foi aluno de Gramática Latina de Tobias
Barreto, na vila de Itabaiana, segundo Sebrão, sobrinho,
em TOBIAS BARRETO, O DESCONHECIDO (Imprensa Oficial,
Aracaju, 1941, p. 89).
Ao
mencionar o nome do irmão e de seu precoce óbito, na
sina trágica de alguns dos alunos de Tobias Barreto, em
Itabaiana, Sebrão, sobrinho, sobre o padre Felismino,
esclarece: “ ... ordenou-se presbítero da ordem de
San Pedro, virtuosíssimo e muito inteligente, foi o
primeiro vigário da sergipana paróquia de San-Paulo
[hoje Frei Paulo]. Em sua vida sacerdotal, sem mácula,
pouco a pouco insidiosa moléstia mental atacou-lhe o
cérebro e, sôbe essa ação, sem que logo o percebessem
seus superiores, criou visionária religião entre os
matutos das Matas de Itabaiana, que foi a chamada seita
dos Caipiras. Foi internado no Hospício San-João de
Deus, na Baía [Salvador], onde concluiu tristemente sua
existência em dias do ano de 1892, sem que o acreditem
os caipiras, que, sebastiânicamente, ainda lhe esperam o
retorno redentor “.
Outro pesquisador, que lhe faz é Carvalho Déda, em
BREFAIAS E BURUNDANGAS DO FOLCLORE SERGIPANO (Edições
Catavento, Instituto Trancredo Neves, 2a.
edição, 2001, p. 218), ao conceituar, em nível
sergipano, o termo caipiras: ”- Os adeptos do Padre
Felismino, antigo Vigário da Freguesia de Frei Paulo,
Sergipe, o qual, tendo enlouquecido, começou a pregar
sobre o fim do mundo, iniciando uma seita baseada no
Apocalipse e na “Missão Abreviada”.
Pois bem.
Algumas das idéias do Padre Felismino da Costa Fontes
foram salvas pelo padre [e poeta] Raul Borges Bonfim,
não evidenciando, em nenhum dos seus conceitos
coligidos, nada que se relacione ao final do mundo.
Contudo, são fragmentos colhidos oitenta e tantos anos
depois da morte do seu criador, recolhidos oralmente,
passados de geração a geração, sem que, ninguém que viu
o padre pregar estivesse vivo na década de setenta do
século passado, quando o padre Raul foi vigário de
Carira, vizinho da Freguesia de Frei Paulo. A
circunstância tempo opera para a deturpação e alteração
das idéias originais do primeiro vigário da freguesia de
Frei Paulo, mas oferece uma visão, ainda que incompleta,
de seus sermões.
Levando em conta o ano de sua morte, 1892, em cotejo com
o fato de seu irmão ter sido aluno de Tobias Barreto, em
Itabaiana, o padre Felismino da Costa Fontes não chegou
a avançada idade, como a tradição defende (ver, a
propósito, o artigo referido, p. 151), bem como as suas
idéias, acerca do final do mundo, podem ter sido
anteriores às pregações de Antonio Conselheiro, ou podem
ter ocorrido em épocas idênticas, simultaneamente, bem
como se incluírem no ciclo das profecias, iniciadas na
Idade Média.
As conversas, ouvidas na minha infância,
sobre o final do mundo, ressurgem, agora, fortes,
fazendo-me reportar aos anos cinqüenta, a povoar a Rua
do Sol, nos diálogos com pessoas mais velhas,
aproveitando a pálida luz dos postes da empresa elétrica
de Zeca Mesquita. O final do mundo, pelo uso do fogo,
faria parte das pregações, profecias e alucinações do
padre Felismino? As guerras que o século XX abrigou e as
que o século XXI hospeda, o perigo, sempre diário, de um
conflito mundial no qual as armas nucleares podem ser
utilizadas, não seria, por seu turno, a concretização
daquilo que o padre Felismino, em seus momentos de
lucidez [ou não], pregou? A verdade sobre o futuro do
planeta Terra teria sido anunciada no final do século
XIX, em Frei Paulo? E, não custa, ainda, indagar, quem
será o novo Noé, a construir uma espaçonave, para, nas
alturas, ficar imune ao fogo? Não me arrisco a
responder.
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