Vladimir Souza Carvalho (*)
Tivesse de
responder a uma pergunta no sentido de qual o
nome mais bonito dos municípios sergipanos,
excluiria, de antemão, todos os simples,
independentemente do significado de cada um.
Aracaju, Estância, Itabaiana, Lagarto, Própria,
Gararu, Aquidabã, Riachuelo, Laranjeiras,
Pinhão, Carira, etc. e etc., não estariam entre
os mais. Evidentemente que são característicos,
vistos isoladamente, e, igualmente, encaixados
no contexto do Estado. Mas, a minha (minha,
entenda-se, caráter sumamente subjetivo) queda é
pelos nomes compostos, a exibir pompa e poesia.
Para efeito didático, elaborei
duas listas. Uma, constituída dos que considero
mais brilhantes. Outra, formada por aqueles que
tenho, também, como garbosos, embora em
conotação menor.
Separo cinco, para
início de conversa, por ordem meramente
alfabética: Riachão do Dantas, Rosário do
Catete, Santa Luzia do Itanhy, Santo Amaro das
Brotas e São Miguel do Aleixo. Dos cinco, quatro
de origem religiosa (Rosário do Catete, Santa
Luzia do Itanhy, Santo Amaro das Brotas e São
Miguel do Aleixo) e um prestigiando um acidente
geográfico em terras de alguém chamado ou com o
sobrenome de Dantas: Riachão do Dantas.
Todos os cinco nomes são
significativos, do primeiro ao quinto, cada um
carregando uma forte dosagem poética,
independentemente da feição católica, que,
aliás, serve de liame com algo da terra, onde
encontra o ponto culminante, na distinção que
emana. Santa Luzia, por si só, é um mero nome de
uma santa, passando despercebido em qualquer
relação da qual faça parte. Mas, quando se liga
a Itanhy, de repente, não mais que de repente,
se transforma, fica imponente e elegante: Santa
Luzia do Itanhy. Que sonoridade! O mesmo se diga
de Santo Amaro, na sua ligação com Brotas
através da partícula dos, e ainda, de São
Miguel com o Aleixo. Em Itanhy, Brotas e Aleixo,
os três nomes encontram seu ponto máximo, ao meu
ver, ressalte-se, da mesma forma que Dantas e
Catete vão fornecer para os termos Riachão e
Rosário o complemento devido para dosá-los de
uma superioridade em meio aos outros nomes de
municípios sergipanos.
Dir-se-ia que os cinco nomes
ganham, com o complemento, a energia necessária
para galgar a posição maior, embora, por um
desses caprichos da vida, não sejam assim
atribuídos pelo vulgo, que aos municípios em
foco não se referem pelo nome completo. Santa
Luzia do Itanhy passa a ser apenas Santa Luzia,
Rosário perde o Catete para ser só Rosário.
Aleixo esquece o São Miguel para ser conhecido
como Aleixo. Santo Amaro se livra das Brotas, da
mesma forma que Riachão coloca o Dantas de
escanteio, ficando só Santo Amaro e Riachão. Aí
o calcanhar de Aquiles, capricho do nativo com o
bonito nome de seu município, que, aliás, só
atinge tal patamar porque é composto. Fosse
simples, não teria a importância que, na sua
versão integral, apresenta.
Por aí já atracamos em uma
conclusão: os cinco nomes em foco só são bonitos
na sua inteireza e no seu conjunto, não mantendo
o mesmo encanto quando simplificados.
Entre os nomes, também
expressivos, mas, em categoria secundária, e aí
nasce a segunda lista, incluiria,
sucessivamente, por ordem alfabética, a fim de
evitar injustiças, os de Brejo Grande, Campo do
Brito, Cedro de São João, Malhada dos Bois,
Pedra Mole, Porto da Folha e Tomar do Geru.
Analisados, vai ocorrer o mesmo que se verificou
nos nomes anteriores. Brejo sozinho não traz
nenhum sentido diferente. Mas, acrescido de
Grande, ficando Brejo Grande, oferece um cenário
específico, com o termo ganhando outra
conotação, pela força que o adjetivo grande
proporciona. Explicação idêntica para os demais,
na demonstração evidente de que, no caso, aqui,
como nos cinco anteriores, é o conjunto do nome
que vai torná-lo imponente.
Entre os sete desta lista, há
dois, em particular, que despertam uma atração à
parte. Um, Pedra Mole. Outro, Porto da Folha.
Com relação ao primeiro, havia,
como ainda deve haver, na localidade, número
considerável de pedra mole. Quando se referiu ao
local, para diferenciá-lo dos demais que faziam
parte das Matas de Itabaiana, alguém, por certo,
deve tê-lo nominado pelo que, por lá, era
destaque, isto é, as pedras, com o acréscimo do
mole, como se fosse o elemento caracterizador da
pedra. Não seria uma pedra qualquer, mas uma
pedra mole. Um geólogo explicaria melhor
trazendo à lume o tipo da pedra que é
considerada mole. Aliás, no início não era Pedra
Mole, mas Pedras Moles. Já no que se liga ao
segundo, iterativo cuidar-se de município
banhado pelo rio São Francisco. A presença de um
porto é algo perfeitamente natural. Contudo, o
porto é de folha, como se, nos primórdios dos
tempos de colonização, algum ponto ficasse
encharcado de folhas, provavelmente (arrisco um
palpite), trazidas pelo rio, com tal freqüência
que o detalhe ficou. Uma pedra mole e um porto
de folhas, evidentemente, se transformam em algo
meio inusitado, e, até certo ponto, complicado
para um entendimento rápido, embora, no
conjunto, os dois termos carreguem beleza
própria.
Estes, no seu total, os doze
nomes mais primorosos entre os municípios
sergipanos. Ao meu pensar, entenda-se bem. O
gosto aqui é subjetivo, como a chita que vendi
na loja de meu pai, quando era menino, em
Itabaiana. Uns a preferiam salpicada de cores.
Outros, com desenhos mais sóbrios. O gosto
varia, e, aliás, é o gosto que vai definir o
homem.
(*) O autor, ficcionista e
pesquisador, é responsável, quinzenalmente, aos
sábados, por esta coluna.