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“Atire a primeira
pedra”
por Telma Maria Santos
Existe um “ditado” antigo que diz: “quem tem telhado de
vidro não joga pedra no dos outros”.
Evidentemente esse ditado nos remete para uma das mais
belas e enérgicas lições acerca da necessidade de se
mergulhar, sem sofismas e hipocrisia, numa verdadeira
autocrítica: o inesquecível episódio narrado no Novo
Testamento, da pretensão de apedrejamento da mulher
acusada de adultério.
Nessa passagem memorável, obviamente tentaram colocar
Jesus em situação difícil, pois narra o Evangelho de
João (capítulo 8: 1 a 11), que os escribas e fariseus
fizeram questão de lembrar ao Mestre que “na Lei Moisés
nos ordena apedrejar tais mulheres”, para completarem
com um “Tu, pois, que dizes?”.
Na verdade essa pergunta escondia uma nítida intenção de
“testar” Jesus, pois, àquela época, sob o domínio do
Império Romano, somente ao Imperador ou a seus
representantes cabia decidir sobre a vida dos filhos de
Israel. Quiseram, pois, induzir Jesus a um atrito ou com
a Lei de Moisés, ou com as disposições do Império
Romano.
Não contavam eles que Jesus, pura essência divina de
amor, de perfeição, de sabedoria e de justiça,
aproveitaria tal ensejo para brindar a humanidade de
todas as épocas com a lição da indispensabilidade do
exame acurado da consciência. Quem naquele episódio, a
não ser o Cristo, tinha autoridade moral para julgar
aquela mulher? E ao invés de julgá-la, o que fez o
Mestre? Conclamou-a a mudar de vida, através da frase
“vá e não peques mais”. Sim, porque todo o Evangelho é
permeado de misericórdia, mas também de compromisso;
dando nova oportunidade para que o erro seja corrigido.
Não há cumplicidade com os equívocos, mas sim, uma
proposição para a mudança de atitude, a fim de que os
erros não se repitam e se evitem erros novos.
De quantas formas adulteramos os verdadeiros valores, a
essência das coisas, os nobres sentimentos, para
satisfazer a nossa sede de vaidade, de orgulho, de
insegurança e de prepotência, numa corrida desesperada
para fora dos compromissos com a ética, com o bom senso,
com a justiça, com a responsabilidade?
Então, será razoável alguém pretender investir-se na
condição de justiceiro para com os outros, sempre com o
dedo em riste, sem sequer ter a certeza de como reagiria
na situação em que a vítima da censura está
atravessando? Afinal, são inúmeros os fatos que
interferem em determinada atitude ou comportamento, e
quase sempre não se os encara com o discernimento,
imparcialidade e ética, indispensáveis.
Não é que o erro e uma atitude maldosa não devam ser
corrigidos. Mas o que não se pode é, a pretexto de se
censurar um mal, adotar-se uma conduta odiosa, tal a de,
na verdade, impor um julgamento social, mediante o qual
se procura mesmo, sorrateiramente, é desacreditar,
atingir e humilhar o autor do ato a ser corrigido. E
mesmo quando esta censura é necessária, há de se
verificar se o pretenso “julgador” tem autoridade moral
para tanto.
Evidentemente que as pessoas que já atingiram um elevado
grau de sabedoria têm a perfeita noção de que não são
censores dos outros e, por isso, quando precisam afastar
uma atitude ou comportamento nocivo, centram a análise
no ato ou comportamento a ser rechaçado, não se
aproveitando da ocorrência para desqualificar ou
menosprezar o autor. Essas pessoas não trazem as mãos
cheias de pedras porque o crescimento interior já lhes
mostrou que, pelo fato de não serem oniscientes, não têm
como ter um razoável conhecimento, sem uma profunda
análise, dos substratos fáticos mediatos e imediatos que
desencadearam a atitude a ser rechaçada.
Neste ínterim, denota sabedoria maior aquele que, não
obstante perceba que tais substratos jamais poderiam
servir de pretexto para determinado comportamento,
compreende que a correção necessária não se faz com
“apedrejamento”, e sim com o chamamento à razão, através
de mecanismos corretivos éticos e de elevada moralidade.
Portanto, é sobre a intenção da correção que devemos
fazer uma profunda auto-análise, com o intuito de
verificarmos se não estamos agindo dominados por
sentimentos subalternos e se não queremos direcionar
para a vítima do nosso escárnio toda a nossa frustração
pelo fato de nela identificarmos defeitos que ainda
permeiam nossa estrutura psicológica.
Ademais, onde a garantia de que nalgumas das
circunstâncias em que o destinatário da nossa censura
estava, sobre as quais não temos a dimensão e detalhes
suficientes, também nós não sucumbiríamos?
Mesmo para aqueles Agentes a quem o ordenamento jurídico
confere o Poder Jurisdicional, aliás uma grande
conquista da humanidade na área do direito e da justiça,
é salutar lembrar uma frase atribuída a Sócrates: “Quatro
características um juiz deve possuir: escutar com
cortesia, responder sabiamente, ponderar com prudência e
decidir imparcialmente”.
Para os verdadeiros
juízes, ainda convém não esquecer a mensagem contida na
belíssima e sensata reflexão de Marco Túlio Cícero, o
grande orador romano, eleito cônsul no ano 63 a.C.:
Quando se precisar censurar, ou mesmo castigar, deve-se
abster de injúrias, e só ter por finalidade o bem da
república, sem procurar qualquer vantagem para si. É
preciso prestar atenção, evitando que a pena não seja
maior que a falta, e que certos delitos deixem de ser
punidos, quando outros o são. É preciso, principalmente,
não aliar a cólera ao castigo, porque quem pune com
arrebatamento não se abraça aos justos limites entre
muito e muito pouco, tão recomendado pelos peripatéticos.
Tinham eles toda a razão, pois faziam ao mesmo tempo o
enaltecimento da fúria como um presente útil da
natureza. A fúria não se consente aos governantes, que
devem ser como as leis, que punem não por fúria, mas por
justiça.
Para os julgadores sociais
ou censores da conduta alheia, uma observação que
aprendi não faz muitos anos e que pode ser testada por
cada um: quando fazemos o gesto de apontar o dedo
indicador na direção de alguém, automaticamente outros
três dedos (o médio, o anular e o mindinho) são
apontados para nós mesmos. O que será que isso quer nos
dizer?
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