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Zeus, Prometeu e nós outros.
Por
Telma Maria Santos
Se formos buscar na história um povo que personaliza o
marco da maioridade intelectual do planeta,
insofismavelmente teremos que volver os olhos aos
gregos.
Da velha e eterna Grécia ainda hoje ressoam lições
incorporadas às democracias modernas, através de ecos
dos ensinamentos presenciados especialmente em Atenas,
que soube valorizar as artes, a cultura, a vida, a
liberdade, a justiça. Sólon, legislador, considerado o
pai da democracia ateniense, era filósofo e poeta.
O elevado padrão cultural e de politização dos
atenienses foi lembrado por Montesquieu, quando ele fez
a pertinente correspondência entre a desnaturação dos
valores éticos que caracterizam a virtude de um governo
popular, e a queda daquela cidade eterna, perante Felipe
II, pai de Alexandre Magno, na Batalha de Queronéia.
Atenas abrigava em si as mesmas forças enquanto dominou
com tanta glória e enquanto humilhou-se com tanto
vexame. Tinha vinte mil cidadãos quando defendeu os
gregos contra os persas, quando disputou o império à
Lacedomônia e quando atacou a Sicília. Tinha
vinte mil quando Demétrio de Falero os contou,
do mesmo modo como em um mercado se enumeram os
escravos. Quando Felipe ousou submeter a Grécia, quando
ele surgiu nas portas de Atenas, esta não havia perdido
senão o tempo. Pode-se verificar em Demóstenes, quanto
esforço foi necessário para despertá-la: temia então
Felipe não como inimigo da liberdade, mas como inimigo
dos prazeres. Essa cidade, que havia resistido a
tantos revezes e que vimos renascer após suas
destruições, foi vencida em Queronéia, e para sempre.
Que diferença faz se Felipe tenha restituído todos os
prisioneiros, se o que ele restituiu já não eram mais
homens? Sempre havia sido mais fácil vencer as forças de
Atenas que vencer sua virtude.
(Os negritos são nossos).
De outro vértice, também na riquíssima mitologia da
velha Hélade chegam-nos incontáveis lições que nos fazem
sempre retornar à terra de Tales de Mileto, Pitágoras,
Xenófanes, Sócrates, Péricles, Platão, Aristóteles,
Hipócrates, Arquimedes, Heródoto, dentre outros vultos
da humanidade.
Um dos mitos mais impressionantes é o de Prometeu, um
titã a quem Zeus confiou a criação do homem e que, à
revelia daquele, levou o fogo para os humanos, quando
era privativo dos deuses. A atitude de Prometeu
possibilitaria a iluminação da terra.
Inconformado e irado com o que considerou traição de
Prometeu, Zeus o condena a uma pena eterna: amarra-o a
um rochedo e, durante o dia uma águia lhe devorava o
fígado, que sempre se recompunha à noite, para que a
tortura se eternizasse. Somente depois de milênios
Hércules tê-lo-ia salvo de tal crueldade.
Naturalmente que a vingança de Zeus não somente o
desveste de qualquer divindade como também decreta a
ostensiva falibilidade dos seus valores e das suas
atitudes. Denota uma postura vingativa, cruel e
desprovida de senso de justiça. Seguramente a grande
figura do Olimpo não fora apresentado aos princípios da
razoabilidade e da proporcionalidade, dentre outros
inibidores de arbítrio e de injustiça.
Conforme aponta a Revista Superinteressante de abril de
1990, a atitude desse Titã que desafiou a ira de Zeus
para levar a luz do fogo para as suas criaturas tem
povoado a mente dos mais diversos artistas:
A
história emocionante da conquista do fogo e da cultura
por Prometeu há milênios inspira poetas e prosadores
suscitando diversas interpretações do mito. Um dos
primeiros foi o grego Ésquilo (525 - 456 a.C), que em
sua peça Prometeu Acorrentado, até hoje considerada um
hino à liberdade, mostra Prometeu, preso à montanha e
perseguido pelas águias, conversando com sucessivos
visitantes que lhe trazem notícias.
No fundo, Zeus pretendia que as criaturas humanas se
eternizassem nas sombras, que simbolizam o
desconhecimento, a inconsciência crítica, sem nenhuma
possibilidade de exercício do livre arbítrio, que é
vinculado às conseqüências de sua utilização. Sem a
liberdade de agir, os homens não amadurecem, não evoluem
moralmente e, assim ocorrendo, não lhes poderia ser
imputado o sucesso ou o fracasso.
Mas a reflexão vai além do parágrafo anterior, pois
ainda se identifica em tal mito a intolerância de Zeus
diante do fato de Prometeu tê-lo preterido.
Secundariamente, nota-se uma perda de poder, já que a
benesse do fogo tornou-se generalizada.
Duas situações com as quais é difícil lidar, já que
deságuam na vaidade e no orgulho, se o ego ainda estiver
na infância dos sentimentos. Desse estágio para a
exteriorização de uma atitude desvestida de bom senso e
de ponderação, nenhum milímetro separa. Surge, então, a
pessoa reativa, aquela que não reflete, não avalia, não
disseca os fatos ou os acontecimentos. O impulso
desvairado é o seu guia e os equívocos, sua bagagem; não
chega a lugar nenhum, porque tropeça nos próprios erros
repetidamente, tal como as inúmeras destruições e
renascimentos do fígado de Prometeu. Não há Hércules que
lhe possa socorrer se não se conscientizar da
indispensabilidade da autocrítica e da autodisciplina.
Quantas correntes nos prendem ao solo das nossas
atitudes e escolhas perniciosas, guiadas ou por
instintos que já deveriam ter cedido lugar à razão, ou
por racionalidade fria, estéril de sentimentos tendentes
a nos elevar aos páramos da condição de seres a caminho
da perfeição.
A humanidade que desintegra o átomo, que devassa uma
célula, desvendando as maiores intimidades do seu
núcleo, que mapeia os cromossomos, que vai à lua e
estuda as estrelas, é a mesma que tem dificuldade em
perdoar, em compreender, em respeitar as diferenças, em
extirpar os preconceitos, em investir na valorização da
ética e da justiça.
O que estamos fazendo com a centelha divina que Deus
depositou em cada um de nós? Por que, a exemplo da
parábola das dez virgens, agimos como as cinco virgens
imprudentes que não carregaram o azeite, ausentaram-se
para ir comprá-lo, e, ao retornarem, o noivo já tinha
chegado, e não puderam adentrar na festa das bodas?
Convenhamos: falta-nos o azeite da determinação de
refazer a estrada, rever valores, revisitar a nossa
paisagem íntima. Somente assim poderemos extirpar os
acúleos dos erros que plantamos.
http://super.abril.com.br/superarquivo/1990/conteudo_112016.shtml
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