Artigo

 

Zeus, Prometeu e nós outros.

Por Telma Maria Santos[1]

 

Se formos buscar na história um povo que personaliza o marco da maioridade intelectual do planeta, insofismavelmente teremos que volver os olhos aos gregos.

Da velha e eterna Grécia ainda hoje ressoam lições incorporadas às democracias modernas, através de ecos dos ensinamentos presenciados especialmente em Atenas, que soube valorizar as artes, a cultura, a vida, a liberdade, a justiça. Sólon, legislador, considerado o pai da democracia ateniense, era filósofo e poeta.

O elevado padrão cultural e de politização dos atenienses foi lembrado por Montesquieu, quando ele fez a pertinente correspondência entre a desnaturação dos valores éticos que caracterizam a virtude de um governo popular, e a queda daquela cidade eterna, perante Felipe II, pai de Alexandre Magno, na Batalha de Queronéia.

Atenas abrigava em si as mesmas forças enquanto dominou com tanta glória e enquanto humilhou-se com tanto vexame. Tinha vinte mil cidadãos quando defendeu os gregos contra os persas, quando disputou o império à Lacedomônia e quando atacou a Sicília. Tinha vinte mil quando Demétrio de Falero os contou[2], do mesmo modo como em um mercado se enumeram os escravos. Quando Felipe ousou submeter a Grécia, quando ele surgiu nas portas de Atenas, esta não havia perdido senão o tempo. Pode-se verificar em Demóstenes, quanto esforço foi necessário para despertá-la: temia então Felipe não como inimigo da liberdade, mas como inimigo dos prazeres. Essa cidade, que havia resistido a tantos revezes e que vimos renascer após suas destruições, foi vencida em Queronéia, e para sempre.  Que diferença faz se Felipe tenha restituído todos os prisioneiros, se o que ele restituiu já não eram mais homens? Sempre havia sido mais fácil vencer as forças de Atenas que vencer sua virtude.[3] (Os negritos são nossos).

 

De outro vértice, também na riquíssima mitologia da velha Hélade chegam-nos incontáveis lições que nos fazem sempre retornar à terra de Tales de Mileto, Pitágoras, Xenófanes, Sócrates, Péricles, Platão, Aristóteles, Hipócrates, Arquimedes, Heródoto, dentre outros vultos da humanidade.

Um dos mitos mais impressionantes é o de Prometeu, um titã a quem Zeus confiou a criação do homem e que, à revelia daquele, levou o fogo para os humanos, quando era privativo dos deuses. A atitude de Prometeu possibilitaria a iluminação da terra.

Inconformado e irado com o que considerou traição de Prometeu, Zeus o condena a uma pena eterna: amarra-o a um rochedo e, durante o dia uma águia lhe devorava o fígado, que sempre se recompunha à noite, para que a tortura se eternizasse. Somente depois de milênios Hércules tê-lo-ia salvo de tal crueldade.

Naturalmente que a vingança de Zeus não somente o desveste de qualquer divindade como também decreta a ostensiva falibilidade dos seus valores e das suas atitudes. Denota uma postura vingativa, cruel e desprovida de senso de justiça. Seguramente a grande figura do Olimpo não fora apresentado aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, dentre outros inibidores de arbítrio e de injustiça.

Conforme aponta a Revista Superinteressante de abril de 1990, a atitude desse Titã que desafiou a ira de Zeus para levar a luz do fogo para as suas criaturas tem povoado a mente dos mais diversos artistas:

A história emocionante da conquista do fogo e da cultura por Prometeu há milênios inspira poetas e prosadores suscitando diversas interpretações do mito. Um dos primeiros foi o grego Ésquilo (525 - 456 a.C), que em sua peça Prometeu Acorrentado, até hoje considerada um hino à liberdade, mostra Prometeu, preso à montanha e perseguido pelas águias, conversando com sucessivos visitantes que lhe trazem notícias.[4]

 

No fundo, Zeus pretendia que as criaturas humanas se eternizassem nas sombras, que simbolizam o desconhecimento, a inconsciência crítica, sem nenhuma possibilidade de exercício do livre arbítrio, que é vinculado às conseqüências de sua utilização. Sem a liberdade de agir, os homens não amadurecem, não evoluem moralmente e, assim ocorrendo, não lhes poderia ser imputado o sucesso ou o fracasso.

Mas a reflexão vai além do parágrafo anterior, pois ainda se identifica em tal mito a intolerância de Zeus diante do fato de Prometeu tê-lo preterido. Secundariamente, nota-se uma perda de poder, já que a benesse do fogo tornou-se generalizada.

Duas situações com as quais é difícil lidar, já que deságuam na vaidade e no orgulho, se o ego ainda estiver na infância dos sentimentos. Desse estágio para a exteriorização de uma atitude desvestida de bom senso e de ponderação, nenhum milímetro separa. Surge, então, a pessoa reativa, aquela que não reflete, não avalia, não disseca os fatos ou os acontecimentos. O impulso desvairado é o seu guia e os equívocos, sua bagagem; não chega a lugar nenhum, porque tropeça nos próprios erros repetidamente, tal como as inúmeras destruições e renascimentos do fígado de Prometeu. Não há Hércules que lhe possa socorrer se não se conscientizar da indispensabilidade da autocrítica e da autodisciplina.

 

Quantas correntes nos prendem ao solo das nossas atitudes e escolhas perniciosas, guiadas ou por instintos que já deveriam ter cedido lugar à razão, ou por racionalidade fria, estéril de sentimentos tendentes a nos elevar aos páramos da condição de seres a caminho da perfeição.

A humanidade que desintegra o átomo, que devassa uma célula, desvendando as maiores intimidades do seu núcleo, que mapeia os cromossomos, que vai à lua e estuda as estrelas, é a mesma que tem dificuldade em perdoar, em compreender, em respeitar as diferenças, em extirpar os preconceitos, em investir na valorização da ética e da justiça.

O que estamos fazendo com a centelha divina que Deus depositou em cada um de nós? Por que, a exemplo da parábola das dez virgens, agimos como as cinco virgens imprudentes que não carregaram o azeite, ausentaram-se para ir comprá-lo, e, ao retornarem, o noivo já tinha chegado, e não puderam adentrar na festa das bodas?

Convenhamos: falta-nos o azeite da determinação de refazer a estrada, rever valores, revisitar a nossa paisagem íntima. Somente assim poderemos extirpar os acúleos dos erros que plantamos.


 

[1] Juíza Federal da 1ª Vara da Seção  Judiciária de Sergipe.

[2] Na obra citada abaixo, o autor informa que existiam “vinte mil cidadãos, dez mil estrangeiros e quatrocentos mil escravos”.

[3] Montesquieu. Do Espírito das Leis. São Paulo : Martins Claret, 2002, p. 36.

[4] http://super.abril.com.br/superarquivo/1990/conteudo_112016.shtml

 

 

 

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